(no)DECAMERON

2020 

Saí novamente com a desculpa de ir comprar comida, preciso sair de vez em quando. Antes de tudo, vem o alívio de colocar os pés fora de casa. Começa a minha caminhada solitária pelas ruas de Florença; a impressão é de estar em um escasso baile de máscaras. A cidade está quase vazia e se veem mais rastros de vida nos prédios antigos do que pessoas na rua. Ficaram apenas seus verdadeiros moradores e aqueles que não tiveram escolha. Já não se escuta o som frenético dos turistas e das grandes excursões que desbravavam, não tão corajosamente, as velhas construções. Passo por um prédio e é possível ouvir o tilintar dos talheres na louça. Mais à frente, o heavy metal de um dos apartamentos contrasta com a “paz" instaurada. Vejo uma mulher, talvez sozinha, em sua janela, dançando e cantando de forma catártica (quando vou chegar nesse ponto?).
Depois de tantos dias, todas essas cenas começam a parecer normais. Olhares se cruzam com medo. Acredito que de forma semelhante com tempos de guerra, mas, nesse caso, não podemos buscar conforto no outro. Há cada dia a real proporção da pandemia vai despertando nas pessoas. A Itália já ultrapassou o número de mortos chineses em centenas. Ao chegar no supermercado, a fila é grande: não por causa da quantidade de pessoas, mas pela distância entre elas. Uma senhora - sem máscara -  vem rapidamente até mim e direciona-me frases desconexas. Esquivo-me para o meio da rua, dando distância segura, enquanto ela segue o seu caminho. Nunca senti tanto medo de uma velha senhora. As pombas em frente ao Palácio Pitti estão calmas, descansando sobre o sol sem humanos para atrapalhá-las. O silêncio é magistral e assustador. Há momentos de genuína serenidade, uma serenidade que não me lembro de ter sentido outra vez na vida, talvez na infância. Meus devaneios burgueses param por um instante, já é quase madrugada e na janela em frente a minha vejo uma mulher em seu roupão rosa claro estampado - seriam flores? Ela caminha pela sala de estar incessantemente, como um grande tigre enclausurado em uma pequena jaula. Tenho vontade de sair de casa com minha câmera e documentar tudo, mas não posso me arriscar novamente, não quero ser preso. Alguns dias atrás, vi o depoimento de uma médica do norte da Itália, com lágrimas nos olhos, contava sobre as centenas de infectados morrendo sozinhos em leitos de hospitais superlotados, sem qualquer ente querido ao seu lado. Há momentos em que vivo completamente o presente, no entanto, meus pensamentos estão ligados às possibilidades futuras...  Loops de ideias; limbo de ações. Gostaria de estar em algum lugar que não fosse aqui. Não existe mais uma “normalidade” para se voltar. As feridas da sociedade estão abertas, suas fragilidades, expostas. Lucas Flygare, Firenze, março/2020

Curadoria Lucila Horn