CORPO VAZIO

EMPTY BODY

2020

Meu trabalho nas artes visuais nasce e se articula a partir do meu corpo e seu movimento. A tentativa diária de construir uma idealização estética desses é um processo doloroso, traumático e obsessivo, que perdura há anos. Esse ideal seria um corpo que se movimenta da forma necessária e que preenche ao máximo o vazio gigantesco que é uma caixa cênica. Tal processo é como tentar esculpir um instrumento, que tem a pretensão de dançar sempre transcendendo os limites, um caminho que pode ser, paradoxalmente, belo e insano. Essa busca incessante pelo total controle da minha estrutura físico-biológica e, portanto, da minha movimentação, construiu uma forma de intimidade e consciência que me acompanharão até o final da minha existência - mesmo que eu pare completamente de dançar. Porque, com a dança, desenvolvi uma escuta delicada e cuidadosa do corpo, um diálogo constante entre o físico e o mental, que influencia, em todos os níveis, o meu processo criativo. Dessas relações é que surge o trabalho Corpo vazio. A minha experiência como morador de uma Firenze turística, em constante reverência ao seu passado renascentista, de repente se deflagrou em incertezas e em um vazio, impostos pela quarentena. Nesse cenário, existe tanto a impossibilidade de se deslocar quanto a de dançar, esvaziando as possibilidades daquele corpo. Na corpografia da cidade meu corpo físico e social se tornam um só - um vazio poético. Saio, então, do epicentro anterior da pandemia para o epicentro presente, ao retornar ao meu país. É como se eu estivesse permanentemente num palco vazio.

My work in the visual arts is born and articulated from my body and its movement. The daily attempt to build such an aesthetic idealization is a painful, traumatic and obsessive process that has persisted for years. This ideal would be a body that moves in the necessary way and that fills as much as possible the gigantic void that is a scenic box. Such a process is like trying to sculpt an instrument, which pretends to dance always transcending limits, a path that can, paradoxically, be beautiful and insane. This relentless search for total control of my physical-biological structure and, therefore, my movement, has built a form of intimacy and awareness that will accompany me until the end of my existence - even if I completely stop dancing. Because, with dance, I developed a delicate and careful listening to the body, a constant dialogue between the physical and the mental, which influences, at all levels, my creative process. It is from these relationships that the Empty Body work arises. My experience as a resident of a tourist Florence, in constant reverence for his Renaissance past, suddenly unfolded in uncertainty and emptiness, imposed by the quarantine. In this scenario, there is both an impossibility of moving and dancing, emptying the possibilities of that body. In the city's corpography my physical and social body become one - a poetic emptiness. I then left the previous epicenter of the pandemic for the present epicenter, when I returned to my country. It is as if I am permanently on an empty stage.

Curadoria/Curator Lucila Horn