Meu trabalho nas artes visuais nasce e se articula a partir do meu corpo e seu movimento. A tentativa diária de construir uma idealização estética desses é um processo doloroso, traumático e obsessivo, que perdura há anos. Esse ideal seria um corpo que se movimenta da forma necessária e que preenche ao máximo o vazio gigantesco que é uma caixa cênica. Tal processo é como tentar esculpir um instrumento, que tem a pretensão de dançar sempre transcendendo os limites, um caminho que pode ser, paradoxalmente, belo e insano. Essa busca incessante pelo total controle da minha estrutura físico-biológica e, portanto, da minha movimentação, construiu uma forma de intimidade e consciência que me acompanharão até o final da minha existência - mesmo que eu pare completamente de dançar. Porque, com a dança, desenvolvi uma escuta delicada e cuidadosa do corpo, um diálogo constante entre o físico e o mental, que influencia, em todos os níveis, o meu processo criativo. Também aparecem nas minhas pesquisas a efemeridade da existência e as tentativas de permanência, seja no pensar a cidade, marcada por suas relações fugazes, seja na reflexão sobre a vida como um “lugar” provisório. A partir dessa contextualização, fica claro que meu trabalho visual se volta principalmente para o meu universo próximo, onde eu nasci ou onde venho a morar por determinado tempo, e para a reelaboração da tensão entre o real e imaginário. Assim, procuro, através das minhas experiências artísticas e vivências em diferentes lugares, construir meu ponto de vista de maneira poética.

My work in the visual arts is born and articulated from my body and its movement. The daily attempt to build such an aesthetic idealization is a painful, traumatic and obsessive process that has persisted for years. This ideal would be a body that moves in the necessary way and that fills as much as possible the gigantic void that is a scenic box. Such a process is like trying to sculpt an instrument, which pretends to dance always transcending limits, a path that can, paradoxically, be beautiful and insane. This relentless search for total control of my physical-biological structure and, therefore, my movement, has built a form of intimacy and awareness that will accompany me until the end of my existence - even if I completely stop dancing. Because, with dance, I developed a delicate and careful listening to the body, a constant dialogue between the physical and the mental, which influences, at all levels, my creative process. The ephemerality of existence and attempts to stay there also appear in my research, be it in thinking about the city, marked by its fleeting relations, or in reflecting on life as a temporary “place”. From this contextualization, it is clear that my visual work focuses mainly on my close universe, where I was born or where I have been living for a certain time, and for the re-elaboration of the tension between the real and the imaginary. Thus, I try, through my artistic experiences and experiences in different places, to build my point of view in a poetic way.